terça-feira, 28 de novembro de 2017

A Mais antiga oração de Nossa Senhora

No ano início do Século XX, no ano de 1927, no Egito, foi encontrado um fragmento de papiro que remonta ao século III, que foi adquirido pela Biblioteca John Ryland, de Manchester (Inglaterra). O pequeno papiro de 18x9,4 cm, que foi catalogado como Ryl.III,470, teve seu conteúdo identificado em 1939; é o texto de uma oração dirigida a Maria Santíssima, invocada como Theotókos (Mãe de Deus) no século III.


O texto do fragmento papiráceo foi editado em 1938, sem que se tivessem até então identificado os dizeres. Isto só foi feito no ano seguinte por F. Mercenier: este pesquisador verificou que se tratava da oração mariana conhecida e recitada ainda hoje com as palavras iniciais “A Vossa Proteção”. Neste fragmento estava escrito:

Cum Sub tuum præsidium confugimus, sancta Dei Genitrix. Nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus nostris, sed a periculis cunctis libera nos semper, Virgo gloriosa et benedicta


À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas Em nossas necessidades, Mas livrai-nos sempre de todos os perigos, Ó Virgem gloriosa e bendita

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O Sacerdote da Primavera - Chesterton




Sempre me fascinou o tempo e o silêncio. 



 O tempo na filosofia ocidental encontra-se associado a três ideias fundamentais: mudança, progresso e envelhecimento.
Eu gostaria de pensar em três ideias menos inquietantes: paciência, memória e esperança.
As pessoas precisam de tempo: tempo para se desenvolverem, tempo  para se encontrarem. Desse modo deveremos ser, como diz o Novo Testamento, lentos a julgar.
Quanto à esperança, não me refiro aqui à esperança que o tempo traz para os crentes. Prefiro falar do tempo como curativo. Por um lado, da  forma como sara as nossas feridas, como problemas  que nos pareceram gigantescos se resolvem e se esfumam; por outro, da possibilidade que o tempo dá para o perdão. Como pode evitar que reviver uma dor do passado no presente seja fazer outra dor e sofrer novamente, como dizia Shakespeare. Dessa forma, pacifica e sara.

Relativamente à memória, não seríamos o que somos se não fôssemos passageiros no comboio da História. Se não integrássemos o ontem, estaríamos sempre entre desconhecidos e sem casa.
Natal de 1999, Kowloon. Algures entre Tsim Sha Tsui e Yau Ma Tei. A minha mente é assaltada pela miríade de caracteres chineses suspensos e sobrepostos como reclamos luminosos. Esse ruído gráfico e a estranha ausência pública do presépio, despertam-me para o valor da paz e do silêncio. Encontro em Macau a fachada da Catedral de São Paulo, réplica da Sé Nova de Coimbra, construída pelos jesuítas. Uma igreja sem corpo, apenas face, numa cidade que se chama A Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.

Silêncio, silens, estar sossegado, em repouso. O silêncio não é um nada; é um encontro. Se falas constantemente, não pensas; se sempre rebates um argumento, alimentas uma discussão sem fim. A um argumento pode sempre opor-se outro argumento, dizia Dostoiévski. Como pesam as palavras daqueles que  as usam com parcimónia!

O silêncio não é um nada, é um encontro: connosco e com o intangível. Com aquilo que nos fala da mesma forma que a luz do sol; que ilumina a nossa vida com a marca da bondade. Um rosto, uma ruga, um olhar, um gesto, deixam a marca de um botão de rosa. Mas se o silêncio é um encontro com a externalidade intangível, o silêncio também é um encontro com  o intangível em si próprio. Eu acordei na minha circunstância e possuo facetas que não domino nem conheço. Diz Jeremias e o salmista (139), que “antes mesmo de te formar no ventre materno Eu te escolhi”. Não escolhi a minha família, o meu nome, o meu país, o meu corpo, não foi minha decisão nascer como testemunha o meu cordão umbilical. Todas as tentativas de me conhecer, são aproximações narcísicas, que o silêncio delimita e reconcilia.
Não é verdade que eu vejo o argueiro no olho do outro mas não vejo a trave no meu próprio olho? Ou como dizia Chesterton, "(Senhor) Dai-me olhos miraculosos para ver os meus olhos, esses espelhos que rolam vivos em mim..."

Existe um personagem  que integra em si mesmo o tempo e o silêncio, a eternidade e a ausência de réplica, o perdão e a paz. Esse personagem arrebatador, de silêncios desconcertantes, anunciado por todos os profetas, é o único sobrevivente de ecos semelhantes na História. Sobre ele construiu-se uma poderosa civilização e cultura. Ele que acalmou o vento, possui uma singular integração nas estações do ano. Com elas marcha, como numa peregrinação. Nascido no Natal, eis o Sacerdote da Primavera:

"O sol apareceu e o ar amainou  no Domingo de Páscoa. Trata-se de uma claridade intrigante que traz um fôlego não apenas de novidade, mas também de revolução. Existem dois grandes exércitos do intelecto humano que se degladiarão até ao fim em torno de uma questão vital:
Deve enaltecer-se a Páscoa por ela se encaixar na Primavera ou deve enaltecer-se a Primavera por ela se encaixar na Páscoa?

Na verdade, as únicas duas coisas que satisfazem a alma humana são uma pessoa e uma história; e mesmo a história tem que ser acerca de uma pessoa.

Existem na realidade apetites bastante voluptuosos e divertimento nas meras abstracções - como a matemática, a lógica ou o xadrez. Mas estes prazeres da mente são como os prazeres do corpo: são meros prazeres, embora possam ser intensos, nunca, por uma mera gradação de si próprios, poderão conduzir à felicidade.

Um homem que está para ser enforcado pode apreciar o pequeno-almoço, sobretudo se for o seu pequeno-almoço favorito; do mesmo modo, pode apreciar discutir com o confessor um dado argumento herético, sobretudo se constar da sua heresia favorita. Mas o modo como ele aprecia cada um deles não depende intrinsecamente deles; pelo contrário, depende da sua atitude perante um acontecimento subsequente.

E é esse evento que é realmente interessante para a alma; porque é o fim de uma história e, como alguns defendem, o fim de uma pessoa.


Esta verdade é tão simples que está, como outras, vedada aos nossos cientistas. É aqui que eles se enganam redondamente, não apenas sobre a religião verdadeira, mas também sobre as falsas religiões. A sua concepção da mitologia é mais mitológica que o próprio mito.

Existe um tipo de idiotia que encanta o discurso das pessoas modernas, mesmo quando estão acordadas e que me irrita profundamente. Derivou da ciência do século XIX, especialmente no que concerne ao estudo de mitos e religiões. O fragmento de conversa da treta a que me refiro flui do seguinte modo: "Este deus realmente simboliza o sol" ou "Apolo matar a pitão significa que o sol acaba com o inverno" ou "Um rei moribundo numa batalha a ocidente é um símbolo do sol que se põe a oeste.”

Um deus nunca foi um hieróglifo ou símbolo do sol! Era o sol que era um hieróglifo a representar o deus. Nenhum ser humano foi realmente tão contra-natura que adorasse a natureza.

Nós, seres humanos, nunca adorámos a Natureza, por uma razão muito simples. Porque nós somos seres sobrenaturais. Nós imprimimos a nossa imagem na natureza, tal como Deus imprimiu a Sua imagem sobre nós. Nós ordenámos ao sol enorme que permanecesse quieto e imprimimo-lo nos nossos escudos, tratando uma estrela do céu como se fosse uma estrela do mar. E, quando existiam poderes na natureza que não conseguíamos controlar, concebemos enormes seres antropomórficos que os controlassem. Júpiter não significa a trovoada. A trovoada significa a marcha e a vitória de Júpiter. Neptuno não significa o mar; pelo contrário, o mar é sua propriedade, foi ele que o fez.


Reafirmo que ninguém pode compreender qualquer mito, até encontrar um que não seja um mito. Nabos fantasmagóricos nada significam, se não existirem fantasmas. Notas de banco falsas nada significam, a menos que existam notas verdadeiras.
Deuses pagãos nada significam e nada podem significar para aqueles de nós que negam o Deus cristão. Sempre que se conceba um deus, mesmo que um deus falso, o Universo encontra o seu verdadeiro lugar, i. e., o segundo lugar. Quando se trata do verdadeiro Deus, o Universo ajoelha-se, oferecendo flores na primavera e fogueiras no inverno. "O meu amor é como uma rosa vermelha, uma rubra rosa" não significa que o poeta esteja a galantear as rosas usando alegoricamente a imagem de uma jovem senhora. "O meu amor é um medronho” não significa que o autor é um botânico tão deliciado com um medronheiro que se sinta compelido a dizer que o ama. "Aquele que fez a lua e governa o meu céu" não significa que Julieta tenha insinuado que Romeu é o responsável por a lua ser redonda. "Cristo é o sol da Páscoa" não significa que o orante se esteja a dirigir ao sol sob a simbologia de Cristo. Uma deusa ou um deus podem vestir-se de primavera ou de verão; mas o corpo é mais do que roupas.

A religião toma quase com ligeireza o vestido da natureza; e, na verdade, a Cristandade deu-se tão bem com as neves (snow) do Natal como com as campaínhas--de-inverno da primavera (flores do género Galanthus, em inglês snow-drops).

E quando olho para os campos banhados de sol, sinto no âmago dos meus ossos que a minha alegria não reside apenas na primavera, porque a primavera, estando sempre condenada a retornar, seria sempre triste. Existe algo ou alguém que lá caminha, para ser coroado de flores: e o meu deleite reside numa promessa anunciada e na ressurreição dos mortos."

(Entre aspas, The Priest of Spring de G. K. Chesterton).

terça-feira, 27 de junho de 2017

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

O pintor da Virgem do Perpétuo Socorro
Conheça a história e o simbolismo do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que remonta ao tempo dos primeiros cristãos.

O autor do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, exposto à visitação dos fiéis na igreja de Santo Afonso de Ligório, em Roma, permanece desconhecido até nossos dias. Segundo a tradição da Igreja, no entanto, o artista que pintou a imagem da Virgem do Perpétuo Socorro inspirou-se em um ícone atribuído a São Lucas. Além de médico, homem culto e letrado, o Evangelista foi provavelmente um dos primeiros iconógrafos da história da Igreja. Segundo antiga tradição, São Lucas teria pintado ícones de Jesus Cristo, da Virgem Maria, de São Pedro e São Paulo. Há pinturas atribuídas a ele que existem até hoje, como é o caso dos ícones da "Theotokos de Vladimir" e de "Nossa Senhora de Czenstochowa".

A veneração dos ícones sagrados esteve presente na Igreja desde os primórdios do cristianismo. As imagens de Jesus Cristo, de Nossa Senhora, dos outros santos e dos anjos fazem parte da tradição bimilenar da Igreja Católica. No II Concílio de Niceia, em 787, o Magistério da Igreja "justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: dos de Cristo, e também dos da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Encarnando, o Filho de Deus inaugurou uma nova 'economia' das imagens" 

No início do século XVI, surgiram entre os protestantes "novos iconoclastas" e, a exemplo do que aconteceu no passado, em nome da fidelidade às Sagradas Escrituras, nossas imagens sagradas foram quebradas e nossas igrejas terminaram invadidas, depredadas e queimadas. Este fato fez com que o culto às imagens sagradas fosse perdendo a sua força em muitas comunidades, ao passo que, com a tradução da Bíblia do latim para as mais diversas línguas, o culto às Escrituras ganhou cada vez mais força. Essa tendência se tornou ainda mais forte quando, por conta de um falso ecumenismo, passou-se a suprimir as imagens das igrejas e das casas.

À primeira vista, essa mudança na espiritualidade pode até parecer uma evolução.

Dito fenômeno causou, entretanto, um grande problema. Como grande maioria das pessoas não conhecia a Revelação como um todo — Sagradas Escrituras e Tradição da Igreja —, nem a interpretação do Magistério da Igreja acerca do mistério de Deus revelado, isso fez com que crescessem equívocos e interpretações contraditórias. O resultado foi uma verdadeira perversão do sentido autêntico das Sagradas Escrituras, por parte de alguns, e a disseminação de heresias, por parte de outros.

Quanto aos ícones, até a Idade Média, os fiéis, que na sua maioria eram pouco letrados, aprendiam o significado profundo dos símbolos visuais. Dessa forma, pessoas rudes, sem instrução, podiam "ler" nas imagens sagradas o patrimônio de fé da Igreja Católica. No Renascimento — que na realidade foi um verdadeiro retorno ao paganismo —, o culto original aos ícones sagrados reduziu-se drasticamente, passando a fazer parte da espiritualidade de um número cada vez menor de pessoas.

No limiar do terceiro milênio, o Concílio Vaticano II tratou, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre o espírito da pregação e do culto. Nesse documento, o mais importante do Concílio, somos orientados quanto ao culto à Virgem Maria e às sagradas imagens, confirmando o ensinamento que nos foi dado em Niceia:

"Muito de caso pensado ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todos os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos" 
Na contramão desses fatos, o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro parece ser para nós como que um sinal dos céus para que voltemos às nossas origens.

No final do século XV, um negociante roubou a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do altar onde estava, na ilha de Creta, onde era venerada pelo povo cristão. O mercador viajou com o ícone, de navio, para Roma e escapou milagrosamente de uma tormenta em alto-mar. Já na Cidade Eterna, ele adoeceu gravemente e, por isso, procurou a ajuda de um amigo. No seu leito de morte, o comerciante, arrependido, contou ao amigo que roubou o quadro e pediu a ele que o devolvesse a uma igreja. Este prometeu devolver a obra de arte sacra, mas depois mudou de ideia e morreu, sem ter cumprido a promessa feita ao amigo comerciante.

Para que se cumprissem os desígnios divinos, a Santíssima Virgem Maria apareceu a uma menina de seis anos, familiar de quem portava o ícone, e "mandou-lhe dizer à mãe e à avó que o quadro devia ser colocado na Igreja de São Mateus Apóstolo, situada entre as basílicas de Santa Maria Maior e São João Latrão, sob o título de Perpétuo Socorro" [3]. Em obediência, o ícone foi devolvido e exposto na igreja de São Mateus em 27 de março de 1499. A partir do século XVI, a devoção começou a se divulgar em toda Roma e, anos mais tarde, pelo mundo inteiro. Nessa igreja, a imagem foi venerada durante os 300 anos seguintes. Em 1798, a igreja de São Mateus foi destruída e a imagem foi retirada a tempo, mas ficou quase que esquecida. Até que, em 26 de abril de 1866, o ícone foi entronizado na Igreja de Santo Afonso, onde permanece até hoje.

Como dissemos, São Lucas pintou belos ícones de Nossa Senhora, como a Virgem do Perpétuo Socorro. No entanto, ele também "pintou" algumas das mais belas "imagens" da Santíssima Virgem nas páginas do santo Evangelho. Entre elas, destacam-se: a anunciação do arcanjo São Gabriel à Virgem de Nazaré (cf. Lc 1, 26-38), a visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel (cf. Lc 1, 39-56), o nascimento de Jesus Cristo em Belém (cf. Lc 2, 1-21) e a apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém (cf. Lc 2, 22-40).

No ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, temos alguns simbolismos que se fazem presentes no Evangelho segundo São Lucas.

Na imagem, vemos a mão direita de Maria apontando para seu Filho e no Evangelho temos várias passagens que apontam para Jesus como o Messias esperado pelo Povo de Israel: "O ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus" (Lc 1, 35b); "Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador" (Lc 1, 46b-47); "Eis aqui a serva do Senhor" (Lc 1, 38a); "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho" (Lc 1, 76). Naquele tempo, raramente alguém tinha um livro das Sagradas Escrituras. Possuir uma passagem da Escritura era também muito raro. Por isso, como já dissemos, os primeiros discípulos de Cristo olhavam para os ícones, nas casas das poucas pessoas que os possuíam, e neles "liam" os textos sagrados.

Entre os simbolismos presentes na imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, talvez o teologicamente mais rico e espiritualmente mais significativo seja o retrato do Calvário. Ao contemplar a Virgem do Perpétuo Socorro, vemos à sua esquerda o arcanjo São Miguel, que apresenta a lança, a vara com a esponja e o cálice das amarguras que o Cristo sorveu até o fim. À direita, está o arcanjo São Gabriel, com a cruz e os cravos, que foram os instrumentos da paixão e morte de Jesus. O Menino Jesus, o Perpétuo Socorro em pessoa, assustado ao olhar para os instrumentos de Sua paixão, com as duas mãos, segura firmemente a mão direita de sua Mãe, como que nos ensinando a confiar-nos inteiramente a ela, especialmente nos momentos de medo, dor e sofrimento.

Para completar a nossa "leitura" do ícone, na perspectiva do mistério pascal de Cristo, podemos olhar para Maria como a Virgem das Dores. A sua mão esquerda, que sustenta o Filho, simboliza a sua presença aos pés da cruz (cf. Jo 19, 25). O seu olhar materno, ao mesmo tempo que demonstra o acolhimento e o cuidado para com cada um de nós, que fomos entregues a ela como filhos, é um convite para que a levemos para o que é nosso, ou seja, para a nossa vida interior, como fez o discípulo amado (cf. Jo 19, 27).

Um detalhe do ícone, que pode passar despercebido, é a sandália desamarrada, que pode simbolizar um pecador, preso a Jesus apenas por um fio, fio este que é a devoção a Santíssima Virgem. Este "fio" tão frágil pode ser uma lembrança, ou uma devoção sem muita piedade, que num momento de desespero, de sofrimento, pode nos manter unidos ao Senhor. Vemos uma imagem disto naquela que é provavelmente a mais conhecida e bela parábola de Jesus, presente somente no Evangelho escrito por Lucas: a parábola do filho pródigo. Depois de deixar a casa do pai e de gastar toda a sua fortuna numa vida desenfreada, o filho esbanjador estava na situação humilhante de cuidar de porcos. Para os judeus que ouviram de Jesus esta parábola, cuidar de porcos era ainda mais humilhante, porque eles os consideravam animais impuros. Para completar a humilhação, o rapaz, faminto, queria comer a comida dos porcos, mas nem isso lhe era dado para comer (cf. Lc 15, 11-16). Foi então que ele entrou em si, refletiu, recordou-se que na casa de seu pai até mesmo os empregados tinham pão em abundância e tomou a decisão de voltar (cf. Lc 15, 17-18). Da mesma forma, um pecador pode voltar para Jesus e se salvar pela simples devoção que tem à Virgem Maria, ou até mesmo por uma vaga lembrança do amor que nutre por ela.

Nas passagens do Evangelho que falam dos dois ladrões, crucificados à direita e à esquerda de Jesus, há aparentemente uma contradição, que pode nos ajudar a aprofundar nossa reflexão. Em Mateus e Marcos, ambos escarneciam de Jesus: "E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam" (Mt 27, 44; cf. Mc 15, 32). Mas, em Lucas, apenas um dos malfeitores blasfemava (cf. Lc 23, 39). O outro, que segundo a tradição se chamava Dimas, não somente repreendeu o outro ladrão, mas também reconheceu que para eles aquela condenação era justa, mas não para Jesus, pois não tinha feito mal algum (cf. 23, 40-41). A razão desta aparente contradição é que, segundo uma visão da mística Beata Anna Catharina Emmerich, a princípio, ambos escarneciam do Cristo, até que algo inesperado aconteceu:

"Dimas, o bom ladrão, obteve pela oração de Jesus uma iluminação interior, no momento em que a Santíssima Virgem se aproximou. Reconheceu em Jesus e em Maria as pessoas que o tinham curado [da lepra] quando era criança e exclamou em voz forte e distinta: 'O quê? É possível que insulteis Àquele que reza por vós? Ele se cala, sofre com paciência, reza por vós e vós o cobris de escárnio? Ele é um profeta, é nosso rei, é o Filho de Deus'" [4].
Naquele momento derradeiro de sua vida terrena, São Dimas recebeu a graça de recordar de Jesus e de sua Mãe. A partir dessa lembrança de sua infância, começou o extraordinário processo de conversão do bom ladrão, que culminou no seu ousado pedido: "Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!" (Lc 23, 42). A salvação de São Dimas estava por um "fio", que era a vaga recordação de uma cura, operada pelas mãos do Menino Jesus e de Maria. Dessa forma, quase no último momento de sua vida, o bom ladrão "roubou" o Céu, a salvação eterna.

São Lucas escreveu o Evangelho de Jesus Cristo não somente com palavras, mas também com imagens, que nos ajudam a encontrar na devoção a Virgem Maria um caminho seguro para chegar a Ele. Que neste dia, no qual celebramos Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, façamos o salutar propósito de "ler", na sua imagem, as Sagradas Escrituras, e nelas encontrar o próprio Cristo, a Palavra de Deus que se fez carne.

Ainda que nossa situação seja semelhante à do filho pródigo, ou como a do bom ladrão, e nossa vida esteja unida a Cristo apenas por um "fio", entreguemo-nos com confiança à Virgem das Dores, que nos foi dada, pelo próprio Filho, por Mãe (cf. Jo 19, 27). Assim, da mesma forma que a Mãe de Deus contribuiu para a cura e a salvação de São Dimas, ela nos alcançará os bens necessários para a nossa vida terrena e principalmente para chegarmos à glória celeste.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere